Os muitos nomes da cúrcuma e o que eles revela🫚
Share
हरिद्रा Haridrā
A espalhadora do amarelo.
Aqui, hari refere-se à cor amarela, enquanto a raiz द्रु (dru) traz o sentido de mover-se, correr ou espalhar-se. O nome evoca uma das características mais marcantes da cúrcuma: seu amarelo intenso se espalha e colore tudo aquilo que toca.
Mas Hari possui ainda outra associação profundamente significativa. Hari é também um dos grandes nomes de Viṣṇu, cuja iconografia está intimamente ligada ao amarelo e ao dourado. Viṣṇu é tradicionalmente representado vestindo pītāmbara, a veste amarela ou dourada.
Assim, a cor da cúrcuma não é apenas uma característica física. O amarelo é uma cor auspiciosa e sagrada na tradição, associada à pureza, à prosperidade e à presença divina.
Talvez por isso seja tão natural encontrarmos a cúrcuma tanto na cozinha quanto diante das Deidades. Ela colore, purifica e torna auspicioso aquilo que toca.
Haridrā deixa sua marca dourada no mundo.
काञ्चनी Kāñcanī
A dourada.
Vem de kāñcana, ouro. Basta cortar um rizoma fresco de cúrcuma para compreender o nome. Sua cor intensa lembra imediatamente o brilho dourado.
पीता Pītā
A amarela.
De pīta, amarelo. É uma descrição simples e direta de sua característica mais evidente.
Primeiro ela é chamada de dourada. Depois, de amarela. A tradição parece querer chamar nossa atenção justamente para aquilo que não podemos ignorar quando temos a cúrcuma diante dos olhos: sua cor.
निशाख्या Niśākhyā
Aquela conhecida como Noite.
Niśā significa noite, enquanto ākhyā significa nome ou denominação. Niśākhyā pode ser compreendida literalmente como “aquela conhecida pelo nome Noite”.
É talvez um dos nomes mais poéticos da cúrcuma.
A noite é o momento em que o mundo exterior silencia, os sentidos se recolhem e a mente se prepara para o repouso. Dentro dessa leitura, o nome nos convida a contemplar a cúrcuma também como uma planta de purificação e recolhimento.
Assim como a noite encerra as atividades do dia e prepara um novo começo, niśā evoca a limpeza daquilo que foi acumulado e o retorno ao equilíbrio.
वरवर्णिनी Varavarṇinī
Aquela de excelente cor. Aquela que favorece uma bela compleição.
Vara indica aquilo que é excelente, belo ou distinto, enquanto varṇa pode significar cor, aparência ou compleição.
O nome é especialmente interessante porque o verso seguinte chamará a cúrcuma de varṇyā, reconhecendo sua relação tradicional com a beleza e a boa aparência da pele.
A tradição não separa completamente saúde e beleza. Uma pele bonita deve ser, antes de tudo, expressão de um organismo bem cuidado.
कृमिघ्नी Kṛmighnī
A destruidora dos kṛmis.
Kṛmi designa vermes e diferentes organismos considerados nocivos na medicina ayurvédica, enquanto ghnī significa “aquela que destrói”.
O próprio nome já anuncia uma das importantes ações purificadoras atribuídas à cúrcuma.
Ela não é chamada apenas por aquilo que parece. Também recebe nomes por aquilo que faz.
हलदी Haladī
Aquela que vem da terra arada.
Podemos relacionar haladī a हल् (hal), “arar a terra”, e a हल (hala), “arado”.
A associação é especialmente bela quando observamos a própria planta. Aquilo que utilizamos como cúrcuma é seu rizoma, que cresce escondido sob a terra e precisa ser retirado do solo durante a colheita.
Haladī nos conduz, assim, de volta à terra.
Enquanto pītā a reconhece pelo amarelo, kāñcanī pelo dourado e kṛmighnī por sua ação, haladī nos recorda sua origem: da terra escura é retirado o rizoma intensamente dourado que depois estará presente na cozinha, na medicina e no altar.
योषित्प्रिया Yoṣitpriyā
A querida das mulheres.
Talvez seja um dos nomes mais delicados da lista.
Yoṣit significa mulher e priyā, querida ou amada.
A cúrcuma ocupa há séculos um lugar especial na vida das mulheres indianas, nos cuidados com a pele e a beleza, mas também nas cerimônias relacionadas ao casamento, à fertilidade, à família e à auspiciosidade.
Não é apenas uma planta utilizada pelas mulheres. O próprio nome diz que ela lhes é querida.
हट्टविलासिनी Haṭṭavilāsinī
Aquela que resplandece no mercado.
Haṭṭa significa mercado, enquanto vilāsinī traz a ideia daquela que brilha, encanta ou se apresenta com beleza.
É uma imagem maravilhosa.
Podemos imaginar os antigos mercados da Índia, repletos de raízes, ervas, tecidos e especiarias. Entre tantas cores, o amarelo intenso da cúrcuma chama a atenção.
Ela não está simplesmente no mercado. Ela resplandece nele.
Mas o que torna a cúrcuma tão especial?
Depois de apresentar seus nomes, o Bhāvaprakāśa passa a descrever suas propriedades:
हरिद्रा कटुका तिक्ता रूक्षोष्णा कफपित्तनुत्।
वर्ण्या त्वग्दोषमेहास्रशोथपाण्डुव्रणापहा॥१९७॥
haridrā kaṭukā tiktā rūkṣoṣṇā kaphapittanut |
varṇyā tvagdoṣamehāsraśothapāṇḍuvraṇāpahā ||197||
“A cúrcuma é picante, amarga, seca e quente. Diminui kapha e pitta. Favorece uma boa compleição da pele e é útil nos desequilíbrios da pele, prameha, alterações do sangue, edemas, pāṇḍu e feridas.”
Aqui encontramos uma combinação fascinante.
A cúrcuma possui sabor amargo e natureza profundamente purificadora, mas, ao mesmo tempo, apresenta potência quente.
Essa combinação é especialmente valiosa. Enquanto purifica, sua natureza quente favorece os processos de transformação do organismo. Na medicina ayurvédica, sua atuação é tradicionalmente relacionada à pele, ao sangue, ao metabolismo e a diferentes processos de purificação.
Ela purifica sem apagar o fogo.
Talvez isso nos ajude a compreender por que a cúrcuma conquistou um lugar tão amplo na vida indiana.
Da medicina para o altar 🪔
Mas a purificação proporcionada pela cúrcuma não termina no corpo.
Na tradição ritual, ela também ocupa um lugar importante. Seu amarelo não aparece em uma pūjā simplesmente porque é bonito.
A cúrcuma é utilizada para tornar auspiciosos o corpo, os objetos e o espaço ritual. O pó amarelo que vemos formando marcas, desenhos e elementos ao redor de determinadas cerimônias não precisa ser entendido apenas como ornamentação. Ele participa da preparação e da proteção daquele espaço sagrado.
Sua associação com pureza e auspiciosidade é tão profunda que a cúrcuma pode até mesmo servir como suporte para a presença de uma Deidade.
Em determinadas pūjās, prepara-se uma pequena forma de cúrcuma para Vighneśvara, Gaṇeśa, que é então invocado e adorado nela.
Pense na beleza disso.
A mesma substância que está na cozinha pode nutrir o corpo, participar dos cuidados com a pele, integrar a medicina, purificar o espaço ritual e tornar-se suporte para a adoração do divino.
Uma substância, muitos mundos
É justamente aqui que encontramos algo muito característico da tradição da Índia.
A cozinha não está separada da medicina. A medicina não está separada da espiritualidade. E a espiritualidade não está separada da vida cotidiana.